Prejuízo da Banca sobe para 1,5 mil milhões

Sábado, 11-Fevereiro-2012

CGD:resultados negativos de 500 milhões de euros no banco público

Prejuízo da Banca sobe para 1,5 mil milhões

Foi o pior ano de sempre da Banca em Portugal. Pela primeira vez, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) apresentou um resultado líquido negativo de 488,4 milhões de euros, arrastando os prejuízos do sector financeiro para os 1587,3 milhões de euros em 2011.

Por:Diana Ramos

Ao contrário do que aconteceu com vários bancos privados, não foi a Grécia que pressionou as contas da CGD. As perdas assumidas com a dívida grega – presente nas carteiras das seguradoras – atingiram os 133 milhões de euros. Mas foram as participações no capital das maiores empresas portuguesas – PT, BCP, Zon e Brisa – e o crédito em incumprimento que mais contribuíram para os maus resultados. A desvalorização das acções destas empresas obrigou o banco a registar perdas de 613,1 milhões de euros. E o crédito malparado penalizou as contas em 827,4 milhões de euros. Desta forma, entre provisões e imparidades, os resultados consolidados da CGD sofreram uma penalização de 1674,6 milhões de euros.

“É evidente que preferia que as coisas não tivessem sido como foram, mas termos prejuízos não nos fragiliza”, garantiu o presidente executivo do banco, José de Matos. O gestor assumiu ainda que “a CGD tem uma actividade muito grande, muito dispersa e com actividades distantes da área bancária”. Sem esclarecer se e quando irá vender a posição do banco na EDP, PT, BCP, Brisa e Zon – em que participa como representante do Estado -, garantiu apenas que o grupo se vai centrar “exclusivamente na actividade bancária”.

Sobre o malparado, José de Matos reconheceu que o valor do crédito em risco é elevado – o mais alto de entre os cinco maiores bancos nacionais – e que tal poderá penalizar novamente as contas em 2012. “Não podemos excluir que a situação se mantenha”, disse, adiantando que a CGD já criou uma direcção central para acompanhar as situações de pré-incumprimento e exigir a reestruturação de créditos e de empresas de forma a evitar novas situações de incumprimento.

CAVACO SILVA RECUSA COMENTAR

O Presidente da República escusou-se ontem a comentar a conversa informal entre os ministros das Finanças de Portugal e Alemanha, argumentando que ambos “já esclareceram este assunto”. Cavaco Silva, que se encontra na Finlândia, salientou apenas que há “boa troca de informações” com a Alemanha e o conhecimento generalizado do “cumprimento” de Portugal.

CONVERSA FAZ BAIXAR OS JUROS

Os mercados financeiros reagiram de forma positiva à disponibilidade alemã de flexibilizar o programa de resgate a Portugal, admitida numa conversa informal entre o ministro das Finanças de Portugal, Vítor Gaspar, e o seu homólogo alemão, Wolfgang Schäuble.

Os juros recuaram nos diferentes prazos, com maior expressão para a dívida a dois anos, que caiu 133 pontos-base e está agora nos 13,75%. Uma tendência justificada pela posição alemã de admitir aliviar as condições do acordo entre a troika e Portugal depois de se conseguir uma solução para a Grécia, durante uma conversa informal no Eurogrupo, captada pela TVI .

O ministério alemão já veio contudo desmentir que esteja a ser preparado um novo pacote de ajuda a Portugal, e Vítor Gaspar diz agora que o reajustamento do programa não está em cima da mesa.

ESTADO COBRA 118 MILHÕES

O Estado arrecadou 118,2 milhões de euros com a contribuição extraordinária aplicada aos cinco maiores bancos nacionais. O Millennium BCP foi o que pagou mais neste imposto extraordinário, tendo registado 32 milhões de euros para este efeito.

VIOLÊNCIA E CAOS AFUNDAM GRÉCIA

Dezenas de manifestantes envolveram-se ontem em confrontos com a polícia em Atenas, durante uma manifestação de milhares de pessoas no primeiro dia de nova greve geral de 48 horas contra a austeridade.

Paralelamente, seis membros do governo demitiram-se e o LAOS, partido de extrema-direita da coligação governativa, anunciou que não viabilizará o acordo com a troika, de que depende um empréstimo de 130 mil milhões de euros


O futuro dura muito tempo

Sábado, 11-Fevereiro-2012

Vasco Pulido Valente – 11-02-2012

O Portugal que aparece na televisão e nos jornais ficou muito abespinhado com os comentários da sra. Merkel sobre a Madeira e as reflexões do sr. Schulz sobre o nosso “declínio”. Os deputados da Assembleia da República espumavam de fúria e o Governo resolveu exibir a sua dignidade num comunicado seco e sentido. Toda essa gente se acha com certeza acima da crítica daqueles que lhe vão dando o pão de cada dia. Mas não lhe ocorre que não mereça o respeito de ninguém. Cá dentro, houve um pacto para não se falar do passado, ou seja, para nunca se apurarem as culpas do sarilho onde nos meteram. E o patriotismo serve para ir calando parcialmente o que se diz lá fora. Os príncipes e o pessoal menor da República andam por aí de “consciência tranquila” , como eles nos costumam garantir, a tratar com serenidade e deleite da sua preciosa vidinha.

Mesmo em portugueses, esta extraordinária ilusão não deixa de surpreender. O Estado falhou no essencial e foram eles que falharam. Não foi a Europa ou a América ou o “capitalismo selvagem” que falharam. Foram eles. Levar um povo inerme à falência e, a seguir, à miséria equivale, por exemplo, a perder uma guerra. São coisas que não se desculpam. A relativa resignação com que os portugueses se têm portado talvez leve a maioria do nosso funcionalismo político ao erro de supor que adquiriu uma espécie de imunidade perpétua e que nem agora, nem depois lhe pedirão contas. Mas, como já se vai vendo, a vontade de as pedir aumenta dia a dia e acabará inevitavelmente por se tornar geral.

Se alguém julga que em 2013 ou 14 ou 15, voltaremos como sempre ao jogo de salão com o PSD, o PS, o CDS e o Bloco, bramindo inanidades por S. Bento e dividindo votos, não percebeu nada do que está a suceder. O putativo prestígio de Cavaco não vale hoje nada. O cidadão comum despreza imparcialmente os partidos. Cada escândalo, cada dívida, cada falcatrua do Estado e adjacências enfraquece o regime. No fim, não sobrará nada. Excepto a mudança. Não a mudança retórica do costume, uma verdadeira mudança: de homens, de partidos, de regras. Provavelmente, lenta e gradual. Mas deliberada e certa. Não importa. Como explicava o outro, o futuro dura muito tempo. Desde Sócrates que a II (ou III) República entrou em agonia. Esperemos com paciência pela III (ou pela IV).


A nova luta de classes

Sábado, 11-Fevereiro-2012

José Pacheco Pereira – 11-02-2012

Muita asneira que para aí circula poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História

Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de “empreendedorismo” teorizava, de forma prosélita e desenvolta, sobre as más escolhas de “projecto de vida” que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que achava que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado um curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos “descomplexados competitivos”. O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de “preguiçoso autocentrado”, antiquado e inútil, “piegas” e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se torna “competitivo”. Estamos, como já referi, perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe “descomplexados competitivos” a “preguiçosos autocentrados”. Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por História.

É verdade que saber História vale muito pouco no mercado de trabalho, mas também é verdade que saber Matemática pura, Física Teórica, Astronomia, Biologia Molecular, já para não falar de Filosofia, Sociologia, Geografia, Grego Clássico e Latim, Literatura Portuguesa, também não valem muito mais. E, by the way, os milhares de licenciados em Marketing, Economia, Jornalismo, ou como se diz agora “Ciências de Comunicação”, Artes Performativas, Arquitectura, Composição, os pianistas, violoncelistas, violinistas, também não vão muito longe. Seguindo o critério do nosso mago do “empreendedorismo”, não é muito difícil, e no meu caso gratuito, aconselhar cursos seguros e certos. Eu costumo aconselhar maltês, uma língua de que há enorme escassez de tradutores e intérpretes na UE, e o turco, russo, chinês e árabe também podem fazer parte do currículo dos candidatos a “descomplexados competitivos”. Mandarim ou cantonês de certeza que têm futuro, assim como “beber a água do Bengo”, na exacta composição químico-financeira corrente para esses lados.

Saber de História não é garantia de nada, nem o conhecimento da História garante que se saiba governar um país. Mas ajuda, ajuda pelo menos a ter-se uma visão menos cega da nossa missão no governo das coisas privadas e públicas, e a conhecer alguma coisa sobre os limites do voluntarismo político. E ajuda bastante a não se ser ignorante, nem a se actuar como um ignorante quando se pensa que tudo começa em nós, essa ilusão adâmica muito corrente nestes dias.

A História ajuda nas coisas grandes e nas pequenas, torna o mundo mais interessante e alimenta a curiosidade e o engenho. Para gostar de comer um croissant não é preciso olhar para ele com os olhos da História e perceber que se está a cometer um acto muito pouco politicamente correcto de turcofobia, ou, pior, de islamofobia. Mas quem sabe o que é e de onde vem o croissant, costuma saber um pouco mais sobre a História da Europa e isso faz bem à sanidade do debate público. Muita asneira que para aí circula sobre os feriados e o seu significado, sobre a Maçonaria, sobre o comunismo, sobre o fascismo, sobre a democracia, poderia ser evitada lendo um pouco mais sobre História.

A História, como todas as formas de cultura viva, é uma forma de saber e olhar. Engana e ilude muito, mas também modera a tendência para a vã glória. Se é que a História nos ensina alguma coisa, é que poucas coisas são realmente importantes e que 99,99% dos casos o que fazemos pouco muda, ou não muda nada. Para os governantes, é obrigatório, para se enxergarem melhor, uma actividade que normalmente não lhes “assiste”. Países como o Reino Unido, ou os EUA, têm a História no centro da política, o que nem sempre dá bons resultados, como se vê em França, onde todos os Presidentes do passado achavam que eram uma encarnação de Vercingétorix, Joana d”Arc, Luís XIV, Napoleão ou De Gaulle e os actuais já ficam contentes em serem como o Astérix.

O discurso de Odivelas do primeiro-ministro ganhava alguma coisa com a História, embora, como ele se encontra na categoria dos “descomplexados competitivos”, não ligue muito a uma disciplina dos perdedores. Mas assim saberia que, antes de nomear os “preguiçosos autocentrados” como seus adversários, deveria pensar duas vezes sobre o papel que o epíteto de “preguiçosos” tem quando é usado genericamente para designar grupos ou comportamentos sociais. Para os colonos, os “pretos” eram a quinta-essência dos “preguiçosos” e por isso deviam ser obrigados a trabalhar à força de castigos corporais. Puxem pela língua a muitos patrões e aos seus capatazes (hoje chamam-se “responsáveis pelo pessoal”), às “patroas” sobre as suas “criadas”, e o epíteto de “preguiçoso” aparece quase de imediato. Em países em que coexistem zonas industrializadas com regiões rurais, os habitantes dessas regiões, o Alentejo, a Galiza, a Andaluzia, o Sul de Itália, são descritos em anedotas como “preguiçosos”. Nos campos trabalha-se muito, dependendo do ciclo agrícola, e há períodos de inactividade, onde, como toda a gente sabe das anedotas, os alentejanos estão debaixo de um “chaparro” a ver o mundo passar em slow motion.

Existe, aliás, outra classificação que costuma vir junto, a de associar essa ruralidade à falta de inteligência e dificuldade em socializar de forma adequada, ou seja, não só eram estúpidos, limitados, como não sabiam comer à mesa. É para isso que servem os epítetos de “saloios” ou de “labregos”, a interessante migração da palavra galega para camponês, que veio junto nos anos trinta e quarenta do século XX com os galegos, que a miséria da sua terra trouxe para trabalhar em mercearias e restaurantes, ou outros ofícios menores, em Lisboa e no Porto. O problema da História é este, o de tornar poucas palavras inocentes.

Na luta de classes entre os “descomplexados competitivos” e os “preguiçosos autocentrados”, a ordem dos pares é interessante, quer na parte social, quer na do psicologismo vulgar. Os “preguiçosos” são primeiro preguiçosos e s?? depois são “autocentrados”, e os “competitivos” são primeiro “descomplexados” e é por isso que são “competitivos”. Os pares têm, por isso, uma ordem invertida: nos “preguiçosos”, avulta a condição social, nos “descomplexados”, a psicologia domina. Embora provavelmente nada disto tenha sido muito pensado e saiu assim, como poderia ter saído de outra maneira semelhante, este dualismo revela aquilo que os sociólogos chamam as background assumptions do seu autor. Os que estão presos na sua condição social, deixam soçobrar a sua psicologia no egoísmo; os dinâmicos psicologistas ultrapassam a sua condição social pelo êxito no mercado.

O país divide-se assim entre funcionários públicos, vivendo do erário público, acima das suas posses, e fazendo tudo para ter feriados e não trabalhar (os “preguiçosos”), cultivando um egoísmo social assente em pretensos “direitos adquiridos” (“autocentrados”); e jovens yuppies, dinâmicos e empreendedores, com uma “cultura empresarial”, capazes de correrem riscos (“competitivos”), sem cuidarem de terem “direitos” para subirem “por mérito” na escala social (“descomplexados”). Nem uns nem outros existem na vida real, nem sequer como caricaturas, que é o que isto é, mas isso pouco importa.

A História está cheia destes dualismos, velhos como o tempo, mas típicos da linguagem abastardada do poder dos nossos dias. É um esquema assente numa mistura de demonização e de wishful thinking, que circula assente num moralismo social, também típico dos dias que passam. A História revela o poder destrutivo deste tipo de discursos, que se tornam, de um momento para o outro, socialmente insuportáveis.

Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do “pensamento único” repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tornarem “preguiçosos autocentrados”.

Historiador


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