Vale a pena?

Opinião de Vasco Pulido Valente – 19-11-2011

O sr. ministro Miguel Relvas, que já várias vezes conseguiu embaraçar o Governo com declarações fora de propósito, resolveu nomear uma comissão para avaliar o serviço público que a RTP presta, a 300 milhões de euros por ano (mais do que recebem, por exemplo, a Câmara Municipal de Lisboa ou a Câmara Municipal de Loures). Embora nessa comissão estivessem amigos meus, sempre achei que a coisa ia por força acabar mal. Primeiro, porque a maioria dos membros da comissão ignorava em absoluto o assunto sobre que se propunha opinar. E, segundo, porque o ministro Relvas começou logo a falar dos planos dele e a tomar medidas sem tom nem som, mesmo antes de ouvir a comissão que tinha inventado ninguém sabe ao certo porquê e com que preciso mandato. Esta sopa turva não prometia; e, de facto, as críticas foram muitas.
O problema do serviço público de televisão esteve sempre em definir o conceito de “serviço público”, que alguns tolos tomam por evidente, mas que na realidade é obscuro e mutável. Tradicionalmente, ou seja, segundo os fundadores da BBC, a televisão, como de resto a rádio, devia informar, instruir e entreter o povinho ignaro. Qualquer alusão sexual era proibida e a gramática (da classe média) um objecto de culto. Com o tempo e com aparecimento de canais privados, tudo isto mudou. E também mudaram os costumes. Para começar, a BBC, como os serviços públicos de grande parte da Europa, foi obrigada, para não afastar a audiência que até ali monopolizava, a descer à abjecção dos novos concorrentes. Depois, porque o mundo já não aturava o ar magistral e superior dos missionários da geração anterior, desistiu definitivamente das regras que a distinguiam.

O “serviço público” acabou assim por se tornar um animal misto, com uma sistemática mistura do bom e do mau. Em Portugal, a RTP nunca passou do mau. Influenciada ou não pelo poder político, a informação nunca se distinguiu pela limpeza e fidedignidade ou por um particular sentido do seu papel social. Oferece notícias soltas, entremeadas por faits divers, sem explicação e fora de contexto (como, convém dizer, a TVI e SIC); programas didácticos verdadeiramente não existem (excepto, para nossa vergonha, os de José Hermano Saraiva); e, tirando o Herman José de há vinte anos, não apareceu entretenimento digno desse nome, excepto importado. Para lá do ministro Relvas, da sua comissão e das luminárias que persistem em sonhar com uma RTP decente, a pergunta é esta: vale a pena pagar o que pagamos por uma estação de quinta ou sexta ordem, que nem com a ajuda do Altíssimo pode melhorar?

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