A Ordem dos Advogados está preocupada com a “vulgarização da advocacia”, a propósito da abertura num centro comercial de Lisboa de uma “Loja Jurídica” onde prestam serviço vários advogados. Observa magoadamente a Ordem que a advocacia é, ali, exercida numa “loja térrea” (em vez de num 5.º ou num 7.º andar, suficientemente longe da gente “vulgar” e suficientemente próxima do limbo).
O Direito tem, como todas as ciências (quando o Direito é ciência e, no caso da advocacia, é quase sempre mera técnica), uma linguagem específica, muitas vezes transformada em jargão cifrado que lhe confere um halo de prática oculta e aos seus praticantes o de sacerdotes intermediários de deuses caprichosos e inacessíveis.
A excessiva proximidade desse sacerdócio aos comuns mortais, ainda por cima numa “loja térrea”, assusta a Ordem, pois deixa à vista que, afinal, os advogados são, se calhar, apenas carne, sangue, nervos, até, ó horrror!, secreções, gente que sabe de leis e regulamentos do mesmo modo que um serralheiro sabe de metais.
Tal descoberta pelas pessoas “vulgares”, que podem começar a pôr-se diante dos advogados de pernas cruzadas e sem baixar humildemente os olhos, é perigosa não só para o “estatuto social” da profissão, mas também para o preço das consultas.
M. A. Pina, in JN de hoje
Publicado por L.C.
Publicado por L.C. 
Publicado por L.C. 

