
Entrevista a Alípio Ribeiro 07:55
“PJ está muito atenta à corrupção no futebol”
O Director Nacional da Polícia Judiciária tem a corrupção na sua lista de prioridades. Não faltam meios. Só um combate especializado.
Filipa Ambrósio de Sousa e Francisco Teixeira

Para o actual director nacional da Polícia Judiciária, “é uma ideia errada criar expectativas muito altas e pensar que daqui a um ano temos tudo resolvido”. Mas mantém a corrupção na sua lista de prioridades.
Alípio Ribeiro lamenta que não haja um ‘feedback’ entre o Ministério Público e a PJ e – em última linha – a magistratura. E admite que as fugas de informação não são a “sua principal preocupação”. Na primeira pessoa, Alípio Ribeiro assume que pretende uma “polícia mais moderna”.
Porquê uma Unidade de Combate à Corrupção?
Porque é um crime que mina a sociedade e está no centro das preocupações das pessoas. Como é o caso do crime de branqueamento de capitais que está no cerne da corrupção. Neste tipo de crime tem de se andar à procura, porque é um crime escondido no armário. São crimes com ‘glamour’ social. Não é gente marginal, são crimes difíceis de desvendar.
E que caminho falta percorrer para que haja uma condenação nesses crimes?
Para já, uma boa investigação. Uma boa articulação com o Ministério Público (MP), uma boa articulação com as entidades tributárias, com os bancos e todas as entidades que nos podem trazer acréscimos de prova. Ninguém imagina que possamos investigar e julgar tão rapidamente quanto se diz. É uma ideia errada criar expectativas muito altas e pensar que
daqui a um ano temos tudo resolvido.
E a articulação com o Ministério Público?
Na prática é boa. Pode existir um ou outro problema, mas isso tem sempre a ver com as pessoas. Não tem a ver com o sistema, nem com o modelo, nem com a instituição. Mas sim com as pessoas.
Como vê o facto do Procurador-Geral da República (PGR) ter dado a Maria José Morgado um processo como o do Apito Dourado? É para si um sinal positivo?
O PGR tomou esta decisão pedindo a avaliação também de tudo o que foi feito nessa matéria até agora. Mas existe uma sensação generalizada que a PJ, o MP e os tribunais chegam tarde.
O que é que falta?
Precisamos de apostar seriamente na prevenção.
Como se previne o crime económico?
Estando nos locais certos, porque há áreas de risco.
E quais são essas áreas?
Temos de trabalhar muito de perto com a Comissão de Valores Mobiliários. Precisamos ainda de caminhar muito…
Essa Unidade do Combate à Corrupção na PJ concentrar-se-á nas autarquias, administração central e no desporto. Porquê estas três prioridades?
Vamos trabalhar em tudo. Aqui o que precisamos é também de especializar – porque a legislação das autarquias é muito diferente da da administração central e é preciso conhecer os mecanismos de cada uma destas estruturas. Com o futebol passa-se o mesmo. São realidades diferentes. E é uma realidade de bastidores.
O que falta? Meios?
Eu tenho o discurso dos fins e não dos meios.
O PSD denunciou a falta de coordenação entre a base de dados da PJ e do MP…
Não foi bem isso que foi falado na nossa reunião… O que se passa é que as polícias perdem o controlo dos processos e, então, passam para uma nova realidade, que é a do MP, que por sua vez deduz acusação e depois vai para julgamento. Aí, o próprio DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) perde o controlo do que se passa. Nós temos que entender a Justiça como algo que deve funcionar em cadeia. Temos uma ideia da prova – mas não sabemos o que aconteceu em julgamento. Porque é que determinada prova pode ter corrido mal. Não chegamos a saber. Não há ‘feedback’. Não chega ao MP o que se passa. E devíamos saber o que se passou, para corrigir procedimentos. Não basta dizer que o juiz se enganou.
E de quem é a culpa?
Não é uma questão de culpa, mas sim de cultura.
Da magistratura?
Cultura de todos os operadores judiciários. Porque só agora se começa a entender o sistema – a justiça penal - como um todo. Nós não sabemos o que não resultou em determinada investigação, porque determinada prova não foi valorada devidamente ou porque foi considerada nula. Isto é fundamental. Temos de saber o que resultou mal numa determinada investigação. Nós e o MP – porque muitas vezes o magistrado do MP que deduziu acusação não é o que se encontra na fase de julgamento.
Preocupa-o as fugas de informação na sua instituição?
Eu creio que não há muitas fugas de informação na PJ. Nalguns casos não direi que não, mas sabe que os inquéritos – que estão em segredo de Justiça – têm muitos actores, incluindo as testemunhas.
E os magistrados?
Não creio que esse risco seja endémico… Vivemos numa sociedade de tal modo mediatizada, que ser demasiado estanque também não é bom… Não seria bom ter uma Justiça demasiado secreta ….
Mas o caso de processos mediatizados como o Portucale e a Operação Furacão acabam por ser muitas vezes contados nos jornais antecipando muitas vezes o próprio tempo da Justiça. Até que ponto isto condiciona a actuação da PJ?
Pode condicionar a nossa actuação, mas não creio que isso seja hoje a questão central. Preocupa-me, mas não é a minha preocupação máxima. É uma questão de ética.
Mas acha que há falta de ética?
Não. Mas as pessoas precisam de interiorizar uma ética comportamental.
Fica surpreendido com estes casos, como o Apito Dourado e as respectivas denúncias públicas?
Na Justiça, nada me surpreende. Mas não me posso pronunciar, porque na altura em que tudo começou exercia funções como procurador distrital do Porto. Portanto, conheço bem esse processo.
Mas a PJ está atenta à corrupção no futebol?
Com certeza. Muito atenta. Não é um trabalho fácil, como devem calcular.
Mas com a ajuda de informadores, o trabalho é facilitado…
Isso com certeza que não posso dizer, mas a PJ está a trabalhar nessa matéria. Seria muito interessante que houvesse resultados. Mas também é evidente que não teremos resultados nem imediatos nem contra todas as evidências. Mas é uma área complexa, embora eu tema sempre o perigo da generalização. Não gosto de ouvir que somos um país de pedófilos e de incendiários. Os resultados não podem ser imediatos, mas a Justiça que passa pela comunicação social anda mais depressa do que a Justiça dos tribunais.
E a PJ? Anda mais depressa ou mais devagar?
Vamos tentar andar um bocado mais depressa. A sociedade assim o exige. E a Justiça não foge aos sinais dos tempos. Mas tem de haver um papel de fiscalização de outras entidades, como os tribunais administrativos, que podem efectuar um papel mais preventivo e não exigir tudo das polícias e MP. Nós só temos de investigar e somos uma estrutura de retaguarda.
“EM TERMOS FINANCEIROS, NÓS ESTAMOS RICOS”
O que é a Unidade de Investigação Tecnológica que vai estar prevista na próxima lei orgânica?
Há determinado tipo de investigações que requerem a utilização de meios sofisticados, que podem estar concentrados numa só organização. É uma unidade central para os casos mais complexos. Para o tipo de crimes que o director nacional decidir. Depende de cada caso.
E em termos de meios financeiros, isso vai implicar um aumento dos mesmos?
Não. Espero que não (risos).
Mas afinal a PJ tem meios a mais ou a menos?
Em termos financeiros nós estamos ricos. Neste contexto de contenção orçamental, dentro do panorama, fomos uma instituição, na área da Justiça, com um aumento considerável no seu orçamento. Aliás, penso que foi o único departamento do Ministério da Justiça (MJ) que recebeu uma dotação maior em relação ao ano anterior.
Como é que a actuação da PJ se altera face a uma lista de prioridades de investigação criminal?
Não muda muito. A directiva é sobretudo para os titulares do Ministério Público.
Mas não lhe faz confusão ser o poder político a definir? Não sente a sua autonomia ameaçada?
Não sinto, não. Torna as coisas mais claras e mais transparentes, porque alguém diz que as prioridades são estas. E a Assembleia da República tem a responsabilidade da gestão da Justiça. Esta lei de política criminal não é para a PJ, mas para o sistema de Justiça. Não pode ser vista do ponto de vista dos meios, mas sim da eficácia do sistema. O grande
perigo de não haver uma orientação é que há dispersão dos magistrados. Porque é que os magistrados não dão prioridade a um processo e dão a outro?
Acha que há excesso de escutas telefónicas?
Esse, neste momento, é um problema ultrapassado. As pessoas começaram a aperceber-se dos erros cometidos, que depois não tinham efeito em audiência de julgamento. Uma utilização excessiva que levava a desaires processuais. E tornaram o recurso a esse meio de prova mais cauteloso. Toda a investigação é para ir a Julgamento. A prova feita nas polícias é para ir a audiência e tem de ir em conformidade com o que manda a lei processual.
A PJ tem um grande peso administrativo que tem de ser reduzido?
Sim. Não tem necessariamente que ser através da deslocalização. Passa, pelo menos, por não contratar novas pessoas. Essa matéria será uma matéria discutida no PRACE, muito mais para a frente. O que interessa agora são as competências e a organização da PJ. Acho que é importante para criar uma polícia mais moderna do que aquela que temos.
“SENTIRIA PENA SE PAULO MACEDO SAÍSSE”
Como classifica a estreita colaboração desenvolvida entre a PJ e a DGCI?
Desde que tomei posse, a minha prioridade foi alcançar um bom entendimento com as pessoas que tratam dos temas fiscais e, nesta área, foi preciso delinear as respectivas competências: a estritamente policial da PJ e a estritamente técnica da DGCI. A colaboração tem sido muito boa e temos intenção de a alargar. Os actores sabem qual é o seu papel. Por outro lado, os conhecimentos técnicos tributários não estão necessariamente na PJ.
Mas porquê esta mais estreita colaboração? É um entendimento pessoal?
Eu entendo assim, mas se fosse só eu não chegava. Paulo Macedo entendeu assim e o secretário dos Assuntos Fiscais entendeu assim. Há uma vontade política nesse sentido.
Neste caso foi uma mudança política?
Sinto que há uma grande predisposição das entidades tributárias em colaborarem com a PJ e há uma grande vontade nossa de colaborar com essas entidades tributárias. Paulo Macedo tem consciência que acções com êxito são benéficas do ponto de vista fiscal – a receita fiscal tende a aumentar. E aqui há um factor educativo.
Como vê uma possível saída de Paulo Macedo?
Eu não comento decisões políticas. Não há pessoas providenciais, mas Paulo Macedo é, com certeza, uma pessoa muito pragmática e muito dinâmica no sentido do interesse público. É um excelente parceiro. Pessoalmente sentiria pena.
Esta nova Unidade no Combate à Corrupção – prevista para a próxima lei orgânica - é uma resposta
directa ao apelo do Presidente da República?
Obviamente que as preocupações do senhor Presidente da República não são indiferentes à PJ. A resposta directa ao Chefe de Estado é desenvolvermos boas investigações, especializar e melhorar as competências da PJ. Nós não temos unidades de investigação nacionais, temos departamentos centrais estanques e sobretudo que trabalham na área de Lisboa. Temos de dar dimensão e importância que as delegações regionais devem ter.
“Não se devem fazer prenúncios de condenações”
Na percepção do director nacional da PJ, Portugal está a assistir a um fenómeno de massificação de crimes que não implica necessariamente o aumento dos mesmos.
“O século XXI vai ser caracterizado por uma globalização da criminalidade”, explica Alípio Ribeiro ao DE. “E como vamos responder a essa globalização do crime é que é o desafio, porque os vários Estados também são ciosos dos seus poderes e são diferentes na forma de encarar a sua cultura judiciária”, defende. Questionado sobre a impunidade que, em Portugal, muitas vezes se verifica entre os titulares de cargos dirigentes, que não são condenados por práticas de corrupção e de
branqueamento de capitais, Alípio Ribeiro adverte que “uma investigação não é uma condenação”. No entanto, o director nacional da instituição considera “que lá chegaremos”. E assume o facto de alguns países europeus serem mais avançados nessa punição. “Não temos uma penalidade tão sofisticada como os outros países”, explica Alípio Ribeiro. “Não podemos ter a ideia de que a investigação é feita nos jornais com uma pressão tal que criamos expectativas muito elevadas. É preciso ter cuidado nesta matéria: deve ser-se exigente e determinante, mas não se devem fazer prenúncios de condenação”, conclui.
Perfil: Alípio Ribeiro
Em Abril deste ano, Alípio Fernando Tibúrcio Ribeiro trocou o cargo de procurador distrital do Porto pelo de director nacional da Polícia Judiciária. Em 2005, foi um dos responsáveis pelo processo “Apito Dourado” e criticou abertamente o “abuso” das escutas telefónicas em Portugal. Tomou posse na PJ passando a mensagem de independência face ao poder político e chegou a ser mencionado em vários círculos para substituir Souto Moura como Procurador Geral da República. Nascido em 1950, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e iniciou a carreira no Ministério Público em 1973.