Quem o diz é Alberto Costa, ministro da justiça, em entrevista ao Público.
O acordo político parlamentar assinado, na semana passada, pelo PS e pelo PSD que vai viabilizar um conjunto de reformas legislativas na área da justiça constitui o “instrumento ideal para concretizar as mudanças de que o sistema precisa”, considera o ministro da Justiça, em entrevista ao PÚBLICO.
Por Paula Torres de Carvalho
Na busca do consenso, Alberto Costa diz que “sempre” foi “orientado” pelo primeiro ministro e aproveita para “agradecer ao PSD os contributos e as ideias com que valorizou este entendimento”.
PÚBLICO – Em que pontos é que o Governo cedeu no acordo com o PSD quanto à política de justiça?
ALBERTO COSTA – O que foi assinado foi um acordo político parlamentar que versa nove reformas legislativas cuja aprovação é da competência da Assembleia da República. E o seu objectivo é o de dotar essas nove leis de condições para perdurar para lá de uma legislatura. O nosso sistema de justiça precisa de ser modernizado, mas essas reformas não preencherão os seus objectivos se estiverem sujeitas a serem revogadas sob a iniciativa do governo seguinte. E daí que seja valioso obter um consenso que garanta os efeitos estruturantes visados com essas reformas legislativas.
Que questões não obtiveram consenso?
O importante, neste acordo, é o que foi objecto de consenso, o que vai ser aprovado na Assembleia da República e constituir o quadro em que o sistema de justiça se vai desenvolver ao longo dos próximos anos. Aquilo que possa ter ficado de fora, o pormenor A ou B, não tem importância que se compare aos efeitos estruturantes que se podem esperar das matérias que foram incluídas neste acordo.
Está a dizer que o que ficou de fora não são mais do que pormenores?
Do nosso ponto de vista, Governo, o importante era que os nossos compromissos fossem respeitados e desenvolvidos numa base de entendimento em que ambas as partes pudessem dar os seus contributos. Nós encontrámos, neste acordo, um instrumento para dar força à aplicação do nosso programa de governo.
Como comenta a notícia de que as propostas de combate à corrupção apresentadas pelo deputado João Cravinho foram ignoradas neste acordo? A corrupção é um pormenor?
Como disse, este acordo político parlamentar versa nove reformas legislativas. O que há a fazer no domínio da corrupção tem a ver fundamentalmente com a investigação e alguns aperfeiçoamentos na área legislativa.
Como por exemplo?
Sublinharia a adaptação da disciplina do fenómeno da corrupção no desporto aos novos quadros agora instituídos na legislação portuguesa, nomeadamente o princípio da responsabilidade penal das pessoas colectivas que dá entrada no código penal. Já dei, por isso, indicações à Unidade de Missão para a Reforma Penal para se ocupar da actualização da disciplina legal da corrupção no mundo do desporto. Gostaria de assinalar que seria negativo assimilar o combate à corrupção com a criação de novos órgãos de Estado com mais despesa pública e mais burocracia para atingir resultados. O que precisamos é que as investigações que se traduzem em centenas de processos não se traduzam apenas em meia dúzia de processos chegados aos tribunais e em meia dúzia de condenações. Existe muita gente que pensa que o combate à corrupção se resolve com uma nova lei, com a criação de uma nova entidade ou com a instauração de uma grande campanha pública… mas o que é preciso neste domínio é efectividade, não propaganda.
Em matéria de direito civil, houve divergência entre o PS e o PSD no que respeita à desmaterialização dos processos?
De modo nenhum, a desmaterialização dos processos encontra-se autorizada por uma lei da Assembleia da República aprovada sem a oposição do PSD. E portanto será um erro de interpretação pensar que existe alguma divergência acerca do caminho a seguir em matéria de desmaterialização.
Sentiu-se, de alguma forma, ultrapassado por o primeiro-ministro ter tomado a iniciativa da assinatura deste acordo?
No princípio deste ano, assumi diversas iniciativas de diálogo com os diferentes partidos políticos no sentido de obter um consenso alargado para certas iniciativas legislativas a que atribuíamos particular importância como as da área penal. Estas desenvolveram-se e estenderam-se a outras matérias. Na abertura do ano judicial, tive ocasião de dizer publicamente que uma das nossas grandes reformas em perspectiva, a do mapa judiciário, era justamente uma das que requeriam um consenso alargado e que o Governo estava disposto a procurar um apoio que fosse para lá da maioria do Governo. Devo dizer que, no exercício das minhas responsabilidades, sempre fui orientado pelo senhor primeiro-ministro. E tudo o que há de mais natural é que a acção política de um ministro, em aspectos como estes, tenha a estrita orientação do primeiro-ministro.
Valorizou todos os contributos?
Todos deram contributos e não quero diminuí-los. Quero até aproveitar para agradecer ao PSD os contributos e as ideias com que valorizou este entendimento. Este acordo é um instrumento muito valioso para dotar o país de reformas que fiquem e que, de alguma maneira, invertem o sentido das concretizações legislativas da Constituição dos últimos 30 anos. Há uma nova geração de políticas constitucionais de justiça que faz a sua entrada na cena politico-institucional portuguesa através deste acordo e é isso que deve ser sublinhado.
Esta ideia partiu de si, surgiu no seguimento do congresso da justiça de 2003?
Este acordo foi o acordo que eu quis. Este conceito de acordo político parlamentar entre dois partidos para viabilizar um conjunto de reformas legislativas determinado é, a meu, ver o instrumento ideal para concretizar as mudanças de que o sistema de justiça precisa.
Há opiniões que sustentam que este acordo se salda numa vitória do PSD que defendeu um “pacto” de regime para a justiça.
Sei que, no passado, existiram muitas elaborações retóricas que não conduziram a resultados. Uma elaboração que, ao lado dos partidos políticos, colocava os operadores judiciários através de sindicatos e corporações, numa solução que considerei sempre como diluidora de responsabilidades… houve outras soluções que envolviam igualmente um número excessivo de intervenientes e abarcavam a totalidade das responsabilidades públicas tornando inviável o exercício de uma responsabilidade governativa. E o que nós temos aqui é um conceito centrado em reformas legislativas enumeradas, quatro das quais já se encontram aprovadas. Seguem-se as restantes cinco. Quase 50 por cento deste encargo de preparação das reformas legislativas está concluído. Este é um conceito diferente dos anteriores que se projecta, sobretudo, na actividade da Assembleia da República.
Pode dizer-se que também foi um passo em frente relativamente à possibilidade de obter um consenso quanto ao nome do futuro procurador-geral da República?
Uma coisa não tem nada a ver com outra. A escolha do procurador-geral da República não é feita com a intervenção da Assembleia, nem dos grupos parlamentares. É feita com intervenção do Governo e do Presidente da República e, portanto, não se deve fazer nenhuma espécie de ligação ou de vinculação entre este acordo e essa nomeação, que não deve ser feita com nenhuma espécie de parlamentarização ou de partidarização implícita ou explícita.
Sente-se então satisfeito com este acordo?
Muito. Considero que algumas reformas fundamentais – que seria muito difícil levar à prática e dotar de estabilidade sem um acordo desta natureza – estão agora viabilizadas.
Tais como?
A revisão do mapa judiciário, o acesso à magistratura, o acesso dos juízes aos tribunais superiores.
Publicado por L.C.
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